Educação de Jovens e Adultos leva à sala de aula 230 alunos acima de 80 anos em BH
Educação de Jovens e Adultos leva à sala de aula 230 alunos acima de 80 anos em BH
GISELE MARIA BICALHO RESENDE
Com 84 anos, Vicentina Gonçalves Ferreira atravessa Belo Horizonte de ônibus, todos os dias, para ir à escola no Centro de Convivência Barreiro, gerenciado pela Prefeitura. Ela faz parte de um grupo muito especial na capital: 230 moradores com mais de 80 anos estão matriculados na Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede municipal.
São alunos que encaram preconceitos e os limites impostos pela idade para chegar a sala de aula. Dona Vivi, como prefere ser chamada, conta que nunca teve a oportunidade de estudar formalmente e vê na EJA a realização de um antigo desejo. “Estar aqui significa muito para mim. Conhecer pessoas diferentes e fazer novas amizades é incrível e traz um aconchego enorme”, comemora.
Tudo nas aulas encanta dona Vivi. “Eu acho tão bonitinha a hora da merenda, lavar as mãos, fazer fila. Como eu nunca fui à escola, isso tudo é novo para mim. É muito gratificante”, afirma. Ela tem como matéria preferida a matemática.
Dona Vivi admite que, no início, hesitou em voltar a estudar. “Quando minha vizinha me convidou, eu fiquei com receio de não aprender por causa da idade. Mas nunca é tarde para aprender”.
O marido dela não frequenta as aulas, mas já começou a fazer algumas atividades em casa, acompanhado pela esposa, que é uma entusiasta dos estudos. “Um conselho que eu dou para quem quer começar a estudar mais velho é: façam isso. É a melhor coisa que vocês podem fazer. Os estudos são muito importantes e aprender coisas novas é muito bom”, diz a idosa.
Persistência
A estudante mais velha da modalidade em BH é Elza Dutra, de 96 anos. Ela frequenta há três anos as oficinas da EJA no Centro de Convivência Paulo Fagundes Penido, unidade administrada na Regional Barreiro por meio de parceria da Prefeitura de Belo Horizonte.
Dona Elza ama pintura e desenho e fala com empolgação sobre o ambiente escolar. “Eu gosto muito daqui, porque tem muita atividade. Estou sempre colorindo, pintando e escrevendo meus poemas. É um ambiente muito ativo”.
Referência pedagógica da gerência da EJA na Secretaria Municipal de Educação (Smed), Marcelo Dias destaca a presença desses estudantes na modalidade. “É uma prova de que o desejo de adquirir conhecimento e de se realizar pelos estudos pode permanecer vivo em qualquer idade".
Segundo ele, muitos dos alunos, na maioria mulheres, carregaram por décadas o sonho de concluir a escolarização em um contexto histórico em que o acesso à educação lhes foi negado. “Para nós, é um privilégio contar com estudantes nessa faixa etária, que trazem tanta experiência de vida, persistência e vontade de aprender”.
Matrículas na EJA
A Smed oferta vagas para a EJA em escolas municipais de todas as regionais. A modalidade é voltada a pessoas acima de 15 anos que não são alfabetizados ou que não concluíram a escolarização.
As matrículas podem ser feitas em qualquer época do ano, diretamente nas escolas que oferecem a modalidade ou nas diretorias regionais de educação. É necessário apresentar documento de identidade, histórico escolar (se houver) e comprovante de residência.
Centros de Convivência
Os Centros de Convivência integram a Rede de Atenção Psicossocial de Belo Horizonte (RAPS-BH) e promovem a inserção social por meio de atividades socioculturais.
Atualmente, nove unidades que oferecem oficinas de artes visuais, artes plásticas, música, artesanato, literatura, cerâmica, bordado, entre outras atividades e projetos que promovem cuidado, inclusão e cidadania.





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